Sentir é Normal

 

 

"Está triste? É depressão. Mudou de humor? É bipolar. Está irritado? É estresse. Está na expectativa? É ansiedade."

 

Cada vez mais, pessoas leigas apropriam-se de todo esse vocabulário e os diagnósticos ficam banalizados. Suspeita-se que o sentimento indesejado seja causado por uma doença e que a suposta cura possa vir com um remédio, sem se dar conta que os sentimentos negativos também acompanham o curso normal da vida. Gradativamente esses sentimentos estão sendo expurgados de nossas vivências, como se não fizessem parte da constituição psíquica do ser humano.

 

Algumas perguntas precisam ser feitas a si mesmo: O que será que este sentimento significa? Por que estou sentindo isso? Como estou interpretando as situações que acontecem em minha vida? Se sempre há um diagnóstico como resposta para todas essas perguntas, isto isenta a pessoa de pensar de modo mais complexo sobre suas emoções, sobre seus comportamentos e sobre o que é preciso mudar para melhorar sua vida.

 

A solução geralmente encontrada é tomar um remedinho para dormir, depois um pela manhã para ficar disposto, um para 

concentrar-se no trabalho e bebidas para se divertir no fim de semana. Ou seja, fazer com que coisas normais da vida precisem de um incentivo químico para funcionar.

 

Evitar sentimentos que causam desconforto é o caminho que pode mostrar-se mais fácil em primeiro momento, mas a pessoa acaba bloqueando o acesso à sua própria subjetividade. Ao deixar de aprender sobre como funcionam suas emoções e reações associadas a estas, vai perdendo a capacidade de fazer boas escolhas para si.

 

Em nossa sociedade não somos acostumados desde pequenos a falar dos sentimentos negativos e encará-los como naturais, o que faz com que estes se tornem um difícil fardo quando adultos. Mas é preciso lembrar que olhar para as emoções que surgem do contato com o mundo é uma boa forma de conhecer a si próprio nas relações que se tecem neste mesmo mundo.

 

Yara de Paula Picchetti

Psicóloga USP

Mestra em Educação UFRGS

Texto originalmente publicado na Revista Fundamental - Ano 06 - Edição 24 - Abril 2016.

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