Diagnóstico de dislexia e outros transtornos de aprendizagem: impactos na

autoconfiança

 

 

Receber um diagnóstico médico de transtorno de aprendizagem é aterrador para a criança e para a família, em termos de descrença em suas próprias capacidades e habilidades. Para aprender é preciso que haja vivacidade, disposição, tolerância à sensação de não-saber, crença em sua capacidade de digerir informações e fazer conexões, e crença de que o processo de conhecer renderá um bom resultado: o prazer de saber. Para aprender, qualquer coisa que seja, é necessário aceitar um desafio.

 

Em geral, a criança que recebe um diagnóstico no campo do aprendizado perde a coragem de aceitar o desafio de aprender, porque acredita que seu ‘transtorno’ será um impeditivo. A criança passa a desconhecer a potência de sua capacidade, pois agora um adulto de referência lhe disse que há um limitador. O agravante é o que os sintomas de um ‘transtorno de aprendizagem’ não são claros, então é comum que ocorra generalização: ao menor indício de fracasso, o ‘transtorno’ é a justificativa sempre à mão. Sabemos que investir energia psíquica em qualquer coisa incerta é muito difícil se algo te sugere a acreditar que você não vai conseguir o que almeja.

 

Você tentaria levantar-se para uma corrida se acreditasse ter uma corrente invisível amarrada a seu tornozelo? Sem saber o tamanho da corrente, não sabe se vai poder alcançar seu destino. Após a primeira tentativa frustrada, não sabe se não conseguiu porque não tem forças para correr o suficiente ou se é a corrente que está te segurando. As pessoas mais próximas tentam te ajudar a levantar para que você vá novamente, mas você já não vê mais motivos para investir nisso. Assim, após um tempo, seus músculos também começam a perder a força, e vão esquecendo quais os movimentos necessários para correr.

 

Ilustrando um estado de indiferenciação entre a própria pessoa e o que a aprisiona, essa metáfora parece um tanto determinista e dramática. No entanto, é comum que algo semelhante aconteça com uma criança que vê suas habilidades reduzidas ao diagnóstico. Sente que é o ‘transtorno’ que comanda todas suas funções relacionadas ao aprendizado, e que tudo o que produz, só consegue fazer com a “permissão” do ‘transtorno’. A criança passa a ser a própria personificação da dislexia (a criança dislexa, como muitas escolas se referem), e por outro lado, a dislexia passa a ser a explicação para tudo que acontece em sua vida escolar.

 

Essa questão é tão grave ao ponto que na grande maioria dos casos o trabalho no atendimento psicológico foca-se mais em lidar com os impactos do diagnóstico na autoconfiança da criança, e também na confiança da família e a da escola em relação às suas capacidades, do que com o que seria próprio do ‘transtorno’ em si. Após os desdobramentos da sentença trazida pelo laudo diagnóstico, há uma longa trajetória até a recuperação da capacidade de aceitar o desafio de aprender, um caminho que infelizmente muitas vezes a criança e sua família não conseguem desbravar sozinhas.

 

Às vezes, aquela corrente não tem serventia nenhuma, e o melhor a fazer é quebrá-la e libertar o maratonista para correr e conhecer o mundo.

 

Yara de Paula Picchetti

Psicologia - USP

Aperfeiçoamento em Orientação à Queixa Escolar - USP

Mestrado em Educação - UFRGS

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