Crianças que NÃO incomodam

 

 

“Meu filho é tranquilo, não incomoda em nada. A escola nunca precisou me chamar por causa dele. Já o outro, mais novo, este é arteiro.” Provavelmente todos já ouvimos frases como estas. Muitas vezes através da comparação com outras, crianças que não incomodam costumam ser lembradas justamente por não perturbarem a tranquilidade de seus pais ou da escola.

 

Como vivemos em uma sociedade disciplinar, as crianças que não incomodam nos dão a sensação de que estamos fazendo um bom papel como educadores, porque geralmente o que esperamos das crianças é apenas que cumpram algumas regras de convivência e tirem boas notas na escola.

 

Porém, frequentemente as crianças que não incomodam não são notadas em sua individualidade pelos adultos que as rodeiam, pois brincam quietas e executam as atividades que lhe são dirigidas. O que preocupa é que estas crianças estão submetidas o tempo todo ao desejo do outro, seja do coleguinha que sempre escolhe as brincadeiras, ou do adulto de referência com a imposição de limites. Quando é que ela argumenta, expõe seu ponto de vista, briga pelo que quer? Por mais que isto dê trabalho para os adultos que terão que lidar com as situações, um pouco de insubmissão também faz parte

do desenvolvimento, pois é necessário na socialização e formação de senso crítico.

 

É claro que cada criança tem suas características, e ser introspectiva ou disciplinada não é um problema em si. A questão é: O que significa a obediência no caso desta criança em específico? Quais são os motivos de tanta introspecção? Ela está encontrando formas de extravasar sua curiosidade, criatividade e tecer relacionamentos? Se sim, então podemos ficar tranquilos. Mas antes precisamos olhá-las, pois algumas crianças buscam novas experiências e exploram o ambiente por si próprias, e outras necessitam ser mais estimuladas.

 

Todas as crianças precisam de atenção e de serem olhadas em sua individualidade, inclusive aquelas que não incomodam.

 

Yara de Paula Picchetti

Psicóloga USP

Mestra em Educação UFRGS

Texto originalmente publicado na Revista Fundamental - Ano 05 - Edição 22 - Outubro 2015.

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